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ENTREVISTA G1 - GLOBO: "Negócios sociais podem ajudar as pessoas a pensarem em outro modelo"


Se para você, leitor, está difícil acordar às segundas-feiras e se aprontar para ir ao trabalho porque nada, nessa rotina, parece fazer sentido, essa entrevista veio a calhar. Se está cada vez mais incomodado com os rumos do nosso modelo de civilização, também.  Rogerio Oliveira, com quem conversei longamente na sexta-feira (dia 23), estava se sentindo exatamente assim, há cerca de cinco anos, quando decidiu dar outro caminho à vida. Para ele, então um bem-sucedido executivo do mundo dos negócios, o trabalho estava dando sensação de vazio. Pediu férias, depois demissão, e nem esperou o mês em que iria ganhar o bônus: “Não quis perder mais tempo”, diz ele.

Rogerio Oliveira abriu um negócio social em sociedade com Muhammad Yunus, cidadão de Bangladesh que ficou conhecido globalmente por ter criado o microcrédito. Para quem, como Rogerio, esteve o tempo todo brincando de “criar empresas para dominar o mundo”, criar um Fundo que não distribui dividendos para os investidores é uma guinada e tanto.

Encontro meu entrevistado num café do Leblon, bairro onde costuma ficar quando vem ao Rio por conta da Yunus Negócios Sociais Brasil. Ele acaba de divulgar os oito projetos que foram selecionados para iniciar, a partir deste mês, o primeiro programa de incubação social no país. A função da empresa de Rogerio é apoiar empreendedores que tenham projetos para solucionar problemas sociais. Ele hoje está feliz, acredita que seu negócio produz uma nova consciência, provoca reflexão nas pessoas. Mas vou deixar que ele mesmo conte sua história. Leia abaixo:

Muhammad Yunus ficou famoso pelo microcrédito e, depois, por ter criado o negócio social. Lembro de uma frase dele quando o entrevistei numa das vezes em que esteve no Brasil: “Empresa social só dá dinheiro para a própria empresa e para quem trabalha”. Isso é bem diferente do que você estava acostumado, Rogerio. Como foi essa mudança? Rogerio Oliveira – Na verdade, Amelia, a minha vida profissional estava me dando muita insatisfação, vazio. Fiz uma tentativa de mudar de empresa para ver se era o ambiente de trabalho, mas não era. Cheguei a fazer uma experiência no Terceiro Setor e não consegui me adaptar também. Nada contra, acho válido o trabalho das ONGs, mas participei de uma que, quando veio a crise, ficou sem o doador principal e teve que mandar 20% das crianças que atendia para casa. Esse modelo também não é eficiente.  Ao mesmo tempo, eu sempre gostei da pegada do mundo dos negócios, aquela eficiência, praticidade. Foi então que li o livro do Muhammad Yunus – “Criando um negócio social” (Editora Campus) – a quem eu já conhecia pela criação do microcrédito. Foi uma libertação para mim. Estamos falando de 2008, por aí. Desse momento em diante, passei a elaborar minha nova estratégia e caminhei para me tornar sócio dele.

Você acredita que o negócio social pode vir a ser uma  mudança no modelo da nossa civilização? Rogerio Oliveira – Sim, acredito. Porque tem a trava do ganho. O empreendedor nasce para resolver problemas sociais, ninguém vai acumular capital com isso. É claro que ele tem algum retorno do seu trabalho, isso é válido, não estamos falando de filantropia. Mas o importante é que o dinheiro do negócio não fique parado no bolso de ninguém, tem que circular, que investir no próprio negócio. Esse é o modelo criado pelo Yunus.

E pode ser uma forma de acabar com a desigualdade social no mundo?

Rogerio Oliveira – O negócio social não pode ser o único modelo da economia, mas um complemento ao modelo econômico que a gente tem hoje e que se mostra falho.  E mais: uma empresa que hoje não produz nenhum valor social, vai morrer daqui um tempo. Até porque não vai atrair novos talentos. Os jovens estão cada vez mais antenados nisso. Ou seja: na prática, o negócio social produz uma mudança de consciência, as pessoas começam a pensar na questão do acúmulo de riqueza, no esgotamento do planeta.

Bem, então, continuando com a sua história...depois de ler o livro, você começou a ver a possibilidade de trazer o modelo aqui para o Brasil? Rogerio Oliveira – Eu já tinha pedido férias, demissão do emprego. Lembro até de um detalhe engraçado: quando decidi tudo isso, pensei assim – “Bem, mas vou esperar fevereiro para ganhar meu próximo bônus. Saio depois”. Mas logo vi que isso era bobagem. Se eu estava querendo fazer uma mudança, não tinha motivo para esperar mais tempo. Então comecei a me aprofundar no tema e descobri que o Yunus faz, uma vez por ano, um fórum mundial sobre negócios sociais em vários países (estamos até tentando trazer para o Brasil em 2015). Soube que ia acontecer em Viena e fui, na cara de pau. Conheci o Hans Reitz, um alemão, espécie de consultor criativo do Yunus, que o provocou a globalizar a ideia do negócio social e criou com ele uma empresa, a Grameen Creative Lab, responsável por promover o conceito mundialmente. Naquele ano, o Hans tinha convidado duas outras pessoas para se juntarem numa outra empreitada, e elas são do mundo de negócios também, botam a mão na massa, não ficam só no conceito. Fui a elas e me apresentei.

Elas gostaram da ideia de trazer para o Brasil?

Rogerio Oliveira  – Sim, ficamos mais ou menos um ano mantendo contato. Elas é que bolaram a ideia do Fundo de Investimento para se criar incubadoras. O Banco do Brasil procurou-as na época, estava interessado em criar o Fundo, acabou não dando certo. Mas, por conta disso, ficamos ainda mais próximos porque elas me pediram ajuda para fazer esse contato aqui.

Enquanto isso, na sua vida pessoal, o que acontecia? Você já estava sem emprego...

Rogerio Oliveira– Eu estava tocando a minha própria incubadora, a Movimento Buena Onda, que criei para apoiar projetos que tragam bons impactos sociais, ambientais ou alegria. Porque eu também sou um estudioso da Felicidade como riqueza, já fui três vezes ao Butão (país que introduziu a Felicidade Interna Bruta no lugar do PIB). Mas vi que tinha algo errado no meu empreendimento, eu ficava muito dependente de doadores. Hoje sei que é preferível ter um milhão de doadores dando R$ 1 cada do que ter um só que dê R$ 1 milhão.

É porque o doador de R$ 1 milhão passa a ter poder sobre o negócio, não é?

Rogerio Oliveira – É isso e tem outra coisa: se ele sai, mata o projeto. Já quando se tem um milhão de pessoas, por mais que várias deixem de doar, o máximo que acontece é ficar com menos recursos.

Quando o Yunus esteve aqui no Brasil para a Rio+20 (em junho de 2012), vocês se encontraram?

Rogerio Oliveira – Promovi um encontro entre ele e CEOs de grandes empresas porque eu já estava querendo provocar as grandes corporações a criarem seus negócios sociais.

Não tem chance, né? As grandes corporações estão focadas em metas e lucro...

Rogerio Oliveira – Tem chance, sim! Total! O lance do lucro é relativo. A Danone, por exemplo, rompeu essa barreira, criou com o Yunus seu negócio social em Bangladesh, fez um iogurte que é oferecido em menor quantidade, com embalagens mais baratas, mas com muitos nutrientes, que vende a 13 centavos de reais. O ganho que ela teve em imagem foi absurdo, mas fora isso, quando ela vende esse mesmo produto nas grandes redes, pode cobrar mais caro porque aí já não está comprometida em resolver problemas sociais. E lucra. E mais: o CEO já me disse que seu maior problema hoje é controlar o número de pessoas que querem fazer parte do projeto. Sobretudo os jovens são muito atraídos por novos modelos que criem soluções.

Como é a sociedade com o Yunus? Ele é muito detalhista?

Rogerio Oliveira – (risos) Muito! Para você ter uma ideia, no caso das embalagens da Danone, quando os executivos de inovação, super orgulhosos da sua criação, apresentaram, ele disse: “Ah, muito bem. Vocês vão resolver um problema e criar outro, porque essa embalagem é de plástico! Não pode fazer de outra forma?” Meses depois eles inventaram a embalagem biodegradável.

Mas, voltando para o Brasil. Como foi criar a empresa?

Rogerio Oliveira – Difícil, como sempre é abrir empresa no Brasil, sobretudo porque tenho sócios estrangeiros. Estabelecemos o negócio aqui como uma rede, com várias unidades, cada uma envolvida com um setor. O de educação, por exemplo, busca levar o conceito do negócio social para a escola. Queremos explicar que é possível fazer diferente, mudar o jogo e vencer no ganha-ganha. Tem outro, da área social, cuja ideia é entrar nas favelas que já receberam a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) e convidar pessoas que têm algum incomodo, alguma ideia para resolver os problemas. Nós não oferecemos as soluções, nós oferecemos espaço, capacitação e investimento. Esse é o papel das incubadoras.

O investimento para as incubadoras vem do Fundo que vocês criaram e que já tem apoio da Fundação Via Varejo. Como funciona?

Rogerio Oliveira – Temos dois modelos: um, para o investidor que quer botar R$ 100 mil (exemplo fictício) e, daqui a dois anos, quer de volta esse dinheiro nominal, sem inflação. Outro é para o doador que, depois de dois anos, não queira o dinheiro de volta, mas peça para se investir em outro negócio.

Vocês dão notícia do dinheiro para o investidor o tempo todo acompanhar o que acontece?

Rogerio Oliveira – Sim, é um fundo de investimento como qualquer outro, vai ser registrado na CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Apenas que a conversa com o mercado é diferente, eu digo que quero criar um fundo que não dê rentabilidade.

E eles aceitam isso?

Rogerio Oliveira – Claro, tem que aceitar! Até porque, tem muito Fundo que promete rentabilidade e quebra!  A pergunta que vem à cabeça das pessoas é outra: que investidor é esse, que aceita entrar num Fundo sem ganhar nada? Eu respondo: é um ex-doador, a pessoa que costumava dar dinheiro para ONGs todo ano. Só que no Fundo ele doa uma só vez. É um dinheiro que se recicla, como o Yunus costuma dizer.

A Via Varejo, que possibilitou a incubadora de vocês, é formada por empresas que estimulam o consumo...

Rogerio Oliveira – É importante dizer que a Via Varejo está fazendo um investimento social no nosso projeto, não significa dizer que ela é um negócio social. Assim como a Danone não é um negócio social no mundo todo.

Como é o processo da incubadora?

Rogerio Oliveira – Abrimos uma janela no site avisando que estaríamos formando, e recebemos 140 projetos. Desses, selecionamos oito que entrarão num processo de capacitação por três meses, até a gente decidir se é viável ou não. A incubadora é uma espécie de grande escola para fortalecer o modelo do negócio.

Um deles eu achei particularmente interessante: o “Meu Doutor”, que disponibiliza médicos voluntários para comunidades carentes. Mas, como vai ser isso? As pessoas pedem o médico via site? E eles terão tempo para estar à hora que elas quiserem?

Rogerio Oliveira – Para isso que vai servir a incubação, para entendermos melhor o desafio, modelar melhor. As pessoas donas dos projetos não pagam nada pela capacitação. Lá em São Paulo já temos um galpão enorme em Pinheiros, aqui no Rio ainda será inaugurado.

Então, daqui a três meses teremos novidades sobre esses projetos que estarão incubados...

Rogerio Oliveira – Sim. E estamos pretendendo trazer o Yunus, ele está super empolgado com o novo braço de seu negócio social.

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